- E o que te impede de aproveitar a vida?
- Você.
she's bad.
- E o que te impede de aproveitar a vida?
- Você.
De passos longos e bem definidos faz-se igual. Milhares de passos longos e definidos a rodeiam. Cabeças que se movimentam no ritmo de um apressado caminhar. Outras que insistem em se movimentar num estado de constante reprovação. Os rostos, esses são completamente iguais e enquanto se movimentam tornam-se um borrão bege perdido diante do cinza da cidade. E toda essa vertigem de uma vida em sociedade. Sociedade doente. Atinge- a com a força de um tufão. Mas continua, caminhando no mar de cinza e bege, a procura de um pouco, quem sabe, de azul. Gritos e o assustador som de um freio. O velho atropelado enquanto mal conseguia se equilibrar entre a rua e a calçada. Agora, uma cor quente pintou aquele borrão pastel. Vermelho. Ambulâncias gritam ao longe, mais vermelho. O desrespeito dos borrões a furtar os poucos trocados verdes do velho. E até mesmo o céu se fez cinza a espalhar com grossas gotas o vermelho no asfalto. Nada em paz, nada azul.
Um lenço para fora da janela do carro – dança entre a estrada de ipês amarelos. Dentro do carro são dois, lá fora só o eco das árvores, com o farfalhar de folhas caindo ao chão. Folhas essas que bailam junto ao lenço, levantadas pelo vento das rodas do carro.
Destino nenhum. Estrada uma só.
O sol quer sumir. E o carro parar. À frente um campo, mais árvores de ipê. Duas mãos que brincam e se enlaçam. As que sobram balançam, embalam o resto do corpo. Giram. Até que caem e levam o corpo junto. Gramado, cheira a verde. Mas o sol não sumiu, ainda.
Há a constante impressão de que as pessoas não ouvem o que eu digo. Solto frases, discursos, sons aos quais não oferecem a menor estima.
Estou desvanecendo, ficando transparente – aos poucos.
Não sei o que faço aqui.
E sei que pouco adianta reclamar, já o fiz.
Tenho é que esperar o meu completo desaparecimento.
É difícil acreditar na existência de alguém que se goste por inteiro – desde a unha do pé até os sentimentos mais profundos. Eu, por exemplo, odeio minha falta de coragem. Para tudo. Eu aprendi a ser uma medrosa. Fui e sou medrosa.
Monto frases, discussões, choros, emoções que não ultrapassam o espaço do pensamento. Há, contudo, sentimentos que são mais exaltados e os libero pateticamente debaixo de um chuveiro. É tudo estúpido, é tudo completamente vergonhoso.
Mas é o meu Eu.
Não que eu acredite na idéia de que é impossível mudar o seu “eu”. No entanto, eu – sempre tão crítica de tal idéia – me vejo agora humilhada e molhada debaixo de um chuveiro, lutando contra essa falta de mudança.
Eu quero ser uma pessoa melhor, eu quero significar algo, por mínimo que seja, para alguém. Mas, infelizmente, não adianta me mandar de volta para fábrica, porque esse defeito não veio de lá. É defeito que veio com o uso.
Cabral avistou terra não-desbravada em abril de 1500. Um átomo possui nêutrons, prótons e elétrons. A Guerra de 100 anos não durou exatamente cem anos e teve Guerra que durou apenas 6 dias, com conflitos no Golã e no Sinai. Stalin matou muito mais que Hitler. Elvis morreu e o homem foi para “lua” em 1969. Getúlio implantou o Estado Novo e se matou não tão novo. O Snape que matou o Dumblendore, e o Potter não morreu no fim. Macondo é exterminada e os japoneses para o Brasil vieram no século XX. Clarice Lispector esperava pela epifania enquanto Álvares de Azevedo tossia a tuberculose, enquanto a mesma atingia Manuel Bandeira – ainda jovem – que só se foi com mais de oitenta. Darwin fez a teoria da evolução, já o homem é XY e mulher é XX. Cazuza se foi com a AIDS, o Senna de acidente na fórmula 1. Darth Vader é o pai do Luke Skywalker e o Plutão não é mais planeta. A ordem dos fatores não altera o produto, Ornitorrinco é animal e Otorrinolaringologista é médico, agora o golpe militar foi no dia da mentira de 1964. E eu? Minha pessoa nunca fez nada de notório nem possui previsões de que dado dia irá chegar. Engulo a história e as informações, assisto o mundo.
Se, nesse mundo, tolice fosse lucrativa – estaria eu com os fundos dos colchões abarrotados. Preciso não esperar dos outros tudo aquilo que eles deveriam fazer.
Pensamentos neuróticos são recorrentes. Não consigo me livrar de certos tiques que seriam capazes de frustrar qualquer outro humano que os descobrissem. São as minhas neuroses, que por pura imprudência alimento com a minha covardia. Sou uma pura e completa covarde, não há melhor designação. É isso.
Como eu posso acreditar em algo tão idiota quanto inferno-astral? Na verdade, não acredito. Mas o peso da idade está me atingindo e me pego repreendendo minhas próprias ações e pensamentos. Assim, começa a colocação de culpa nos astros e o mal-humor. Eles, os astros, pouco se importam, se é que eles consigam se importar, com o fato da minha pessoa possuir quase vinte anos e encontrar-se desempregada e completamente sem rumo. Mas, veja bem, há assunto mais superestimado que a idade? Ah, quantos textos, artigos, linhas, palavras, interjeições e até onomatopéias eu já encontrei sobre o assunto? Ultrapassa a casa dos cinco dígitos. Então, cá estou eu cumprindo o que eu prefiro encarar como um rito de passagem, da adolescência para uma pseudo-fase-adulta. Bem, pouco faz diferença, o que importa é a prova da semana, ou o concurso no final do mês, não é mesmo?
Imagine só, madruguei assistindo seriados de adolescentes transtornados, acordei no meio da manhã e cá estou eu a concluir algo completamente estapafúrdio: eu escrevo muito pouco. Lembro-me bem de aos 7 anos obrigar a minha mãe a ir até o centro da cidade para comprar um caderno do Barney – eu queria escrever histórias. Claro que eram simples fantasias sobre sereias voadoras e garotos com super-poderes, mas aquilo de certo modo me fazia bem. Com o aumento dos centímetros, fui perdendo o gosto, consumindo uma vergonha, a de colocar pra fora o que anda preso no meu mundo imaginário. Então, olhando pro teto do meu quarto decidi: escreverei mais. Não que vocês se importem com isso.